Palavra do Pastor 12/10/2009 03:52:33

A morte fala

Há pelo menos duas oportunidades para a pregação do evangelho que, particularmente, eu não gosto de desperdiçar: a celebração de um casamento e a realização de uma cerimônia de sepultamento. Parece um contra-senso, não? É que no momento da concretização de um casamento, todos os sentimentos estão à flor da pele, e os casais convidados para a festa, vendo aqueles noivos na iminência de iniciarem uma jornada juntos, começam a refletir sobre a sua própria vida matrimonial, lembrando de como ela era no princípio e de como ela se encontra hoje... Às vezes, a distância qualitativa entre esses dois pontos é bastante grande, e não há tema que mexa mais conosco do que o da família. Assim, quando a mensagem proferida por aquele que celebra o casamento leva o ser humano de volta para o princípio de tudo, de acordo com o Gênesis, o homem é levado de volta para Deus, e é aqui que renasce a sua esperança.
E quanto ao sepultamento? Ora, já houve até quem dissesse que a pregação num funeral seria uma atitude oportunista, uma conduta que se aproveita da fragilidade emocional advinda de uma circunstância específica. Mas o que a Bíblia tem a dizer a esse respeito? Foi essa a pergunta que me fiz quando minha avó faleceu no final do mês de junho passado (a propósito, ela morreu em Cristo. Glória a Deus!). Então, fui levado ao texto de Eclesiastes, que afirma: “o dia da morte é melhor do que o dia do nascimento. É melhor ir a uma casa onde há luto do que ir a uma casa onde há festa, pois onde há luto lembramos que um dia também vamos morrer. E os vivos nunca devem esquecer isso” (7.1-2, NTLH).
Primeiramente, antes que alguém fique perplexo, quero dizer que Deus não tem prazer na morte de ninguém (Ez 18.32). Deus sempre quis que o homem vivesse e que essa vida fosse boa. Quando criou todas as coisas no princípio, Deus viu que tudo era “muito bom” (Gn 1.31). Além de criar uma auxiliadora idônea para o homem – porque não era “bom” que ele estivesse só –, Deus ainda fez brotar no Éden “toda sorte de árvores agradáveis à vista e boas para alimento” (Gn 2.9). Deus sempre pensou no bem-estar do ser humano. O sábio Salomão chegou a dizer que “não há nada melhor para o homem do que comer, beber e fazer que a sua alma goze o bem do seu trabalho”. No entanto, ele viu “também que isto vem da mão de Deus” (Ec 2.24). Jesus mesmo chegou a afirmar que Deus é tão bom que “faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos” (Mt 5.45). Como é que é? Deus é bom para com o ímpio? Sim, o apóstolo Paulo nos mostra isso muito bem quando, na cidade de Listra, diante da idolatria de Júpiter e de Saturno, ele alega que no passado os povos andaram nos seus próprios caminhos; contudo, Deus “não se deixou ficar sem testemunho de si mesmo, fazendo o bem”, dando do céu “chuvas e estações frutíferas”, enchendo o coração do homem “de fartura e alegria” (At 14.16-17). E mais adiante, refletindo a doutrina da providência divina, Paulo escreveu que é Deus quem “dá vida, respiração e tudo mais” a todo ser humano (At 17.25). Será que isso cabe dentro de nossa teologia, tão acostumada com a idéia de um Deus que apenas retribui as atitudes do ser humano? Se Deus tivesse adotado esse “pensamento” conosco, jamais teríamos sido salvos. Mas seu amor superou nossa inimizade, nossa indiferença e nossa própria incapacidade de buscá-lo, pois não podemos esquecer que foi a bondade de Deus que nos levou ao arrependimento. Entretanto, como o assunto aqui não é “teologia da prosperidade”, voltemos ao nosso tópico.
Se Deus é bom e quer o nosso bem, por que então Salomão diz nesse texto que o luto é melhor? Ele mesmo dá a resposta: “pois onde há luto lembramos que um dia também vamos morrer. E os vivos nunca devem esquecer isso”. A morte tem aqui a sua mensagem. Primeiramente, ela é um memorial do pecado do ser humano (Gn 2.17). A morte física nada mais é do que o resultado de uma morte espiritual que se instalou no homem a partir do seu afastamento de Deus (Gn 3.19). Se o homem não tivesse transgredido a lei de Deus, a morte seria algo totalmente desconhecido para ele. Por outro lado, a morte também é um indicativo da transitoriedade da vida terrena. Essa morte é o resultado de uma lei divina criada para atenuar o problema da natureza pecaminosa do homem (Gn 6.3). Essa lei foi estabelecida para o nosso próprio bem, na medida em que ela impede que o nosso corpo de pecado se perpetue aqui na terra. Parece que esse era o clamor de Paulo na sua carta aos romanos: “desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (7.24). Em outra ocasião, Paulo chegou a falar do nosso corpo como um “corpo de humilhação” (Fp 3.21).
As palavras de Salomão são reforçadas no NT pelas palavras de Jesus, que disse que “a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui” (Lc 12.15). A vida, criada por Deus, ultrapassa a dimensão material, física. Por isso, a pergunta que devemos nos fazer diante da morte é a seguinte: essa morte é morte para quem e para o quê? Não há dúvida alguma de que a morte fala, de que ela tem uma mensagem. Ao mesmo tempo, é preciso dizer que a morte não é a última mensagem; esta consiste no evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, que declarou: “eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá, eternamente. Crês isto?” (Jo 11.25-26).


Fonte: Christian Lo Iacono

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