“O reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo; mas, enquanto os homens dormiam, veio o inimigo dele, semeou o joio no meio do trigo e retirou-se. E, quando a erva cresceu e produziu fruto, apareceu também o joio. Então, vindo os servos do dono da casa, lhe disseram: Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde vem, pois, o joio? Ele, porém, lhes respondeu: Um inimigo fez isso. Mas os servos lhe perguntaram: Queres que vamos e arranquemos o joio? Não! Replicou ele, para que, ao separar o joio, não arranqueis também com ele o trigo” (Mt 13.24-29).
Ao lermos o texto acima, podemos deduzir facilmente que o diabo é um ser astuto e oportunista. Mas será que temos levado isso em consideração quando pensamos em nossas vidas? Temos nos dado conta das ciladas que o diabo tem armado contra nós? Ora, Lucas escreve que o diabo apartou-se de Jesus, “passadas que foram as tentações de toda sorte”, “até momento oportuno” (4.13). Podemos ver aqui que o diabo costuma utilizar-se de toda sorte de tentações para alcançar o seu propósito. Ele procura atingir-nos através de nossas fraquezas (orgulho, vaidade, cobiça, ciúme, ira, mentira, etc), a fim de causar-nos dano. Foi neste sentido que Salomão escreveu que o homem que não tem domínio próprio é “como cidade derribada, que não tem muros” (Pv 25.28). Sua situação, neste caso, é de total vulnerabilidade. No evangelho de João, por exemplo, observamos o diabo colocando no “coração de Judas”, que já era ladrão (12.6), a idéia da traição (13.2). E no livro de Atos, vemos que Satanás “encheu” o “coração” de Ananias para que este mentisse ao Espírito Santo (5.3). Além destes fatos, se o diabo pôde se aproximar de Jesus a despeito de toda a santidade e poder do Filho de Deus, que recém havia sido batizado no Espírito Santo e por este foi conduzido ao deserto, como relata o evangelho de Mateus (4.1-3), será que ele terá alguma dificuldade para se aproximar de nós em momento oportuno? No livro de Jó está registrado que “num dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles” (1.6 e 2.1). Percebemos, aqui, que o diabo, sim, pode se aproximar, inclusive de Deus. Por isso, o apóstolo Pedro nos ensina que devemos ser “sóbrios e vigilantes. O diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar; resisti-lhe firmes na fé” (1Pe 5.8-9). Ou seja, o diabo sempre está “procurando” alguém, numa situação específica, para devorar. É isso mesmo: devorar! O diabo veio para matar, roubar e destruir. Nunca devemos nos esquecer disso.
Algo interessante na parábola citada no início deste texto é que o joio foi semeado enquanto os trabalhadores dormiam. Por este motivo, Pedro nos adverte a estarmos “alertas” e “vigiando” (NTLH). O melhor remédio nestes casos é a prevenção. Do contrário, segundo o que vemos nesta parábola, o prejuízo apenas poderá será maior ou menor, mas não poderá ser evitado. Mas sendo o diabo um ser astuto e poderoso, não podemos vencê-lo com nossas faculdades e sentidos naturais. Precisamos vestir a armadura de Deus orando “em todo tempo no Espírito” (Ef 6.18). Lembre-se que o salmista declarou: “se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela” (Sl 127.1). Muitas vezes queremos apenas “ter um certo cuidado” ao invés de resistirmos ao diabo “firmes na fé”. Uma vida cheia de fé é a maneira correta de vencermos nosso inimigo, como bem ensinou Paulo: “porque, embora andando na carne, não militamos segundo a carne. Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus” (2Co 10.3-4).
Sabemos também que o diabo é especialista em distorcer a palavra de Deus. No livro de Atos, quando Elimas, o mágico, se opunha a Paulo, procurando afastar da fé o procônsul, o apóstolo disse-lhe: “ó filho do diabo, cheio de todo o engano e de toda a malícia, inimigo de toda a justiça, não cessarás de perverter os retos caminhos do Senhor?” (13.10). Chama-nos a atenção esta habilidade do diabo de perverter o que é reto. Podemos ver um exemplo disso quando Jesus foi tentado no deserto. O diabo, para fundamentar sua tentação, citou para Jesus um texto sagrado: “se és Filho de Deus, atira-te abaixo, porque está escrito: Aos seus anjos ordenará a teu respeito que te guardem; e: Eles te susterão nas suas mãos, para não tropeçares nalguma pedra” (Mt 4.6). Ora, este texto é uma reprodução fiel do Salmo 91.11-12. No entanto, aplicado fora de seu contexto e com prejuízo de uma norma de hierarquia superior (“Não tentarás o Senhor, teu Deus”), o texto foi utilizado perversamente pelo diabo com o objetivo de enganar Jesus. Assim, devemos ter muito cuidado com a leitura das Escrituras e com a sua aplicação. Justificar uma atitude com a citação de um texto bíblico não quer dizer muita coisa. Precisamos que a palavra escrita nos seja revelada pelo Espírito de Deus, que é o verdadeiro autor dos textos sagrados. Este é o motivo pelo qual devemos estar orando em todo tempo no Espírito. Afinal, as palavras de Jesus não são letras somente, mas espírito e vida. Para podermos recebê-las plenamente, precisamos estar no Espírito. E, então, poderemos dizer como Paulo: “o Senhor me livrará também de toda obra maligna e me levará salvo para o seu reino celestial. A ele, glória pelos séculos dos séculos. Amém!” (2Tm 4.18).
Fonte: Christian Lo Iacono