Palavra do Pastor 22/04/2011 18:48:44

Páscoa

Os quatro Evangelhos concordam em que a crucificação de Jesus aconteceu na sexta-feira (Mt 27.62; Mc 15.42; Lc 23.54; Jo 19.31,42). De acordo com a contagem de tempo judaica, isso significa algum momento entre as seis da tarde de quinta-feira e as seis da tarde de sexta-feira. Mas nem tudo é tão simples assim quando consideramos todos os evangelhos. Existe, sobre o tema da Páscoa, por exemplo, uma questão sobre a qual ainda há muita discussão: a última ceia estava associada à refeição da Páscoa (conforme os evangelhos sinópticos) ou ela precedeu a Páscoa (conforme Jo 18.28)?
Ora, é bom dizer que Jesus e os discípulos não voltaram para Betânia naquela noite, como haviam feito outras vezes. Ao contrário, permaneceram ali, dentro da cidade murada de Jerusalém, para fazer essa refeição. Isso é bem mais explicado pelo fato de que a Páscoa tinha que ser comida dentro de Jerusalém. Neste caso, poderíamos afirmar, portanto, que a última ceia estaria associada à refeição pascal. Além disso, Jesus e os discípulos fizeram essa refeição reclinados. A expressão está presente em Marcos 14.18 (no grego, “reclinavam à mesa”). Normalmente as pessoas se sentavam para fazer uma refeição. Somente em refeições festivas, como a Páscoa, inclinavam-se, com almofadas debaixo dos braços, diante de uma mesa baixa (isso explica porque a mulher de Lc 7.36-50 foi capaz de lavar os pés de Jesus e de ungi-lo). Outra questão que deve ser observada é que as pessoas normalmente faziam duas refeições durante um dia comum. A primeira refeição acontecia entre as dez e onze da manhã, e a segunda, no final da tarde. A refeição associada à última ceia foi consumida à noite (Mc 14.17; 1Co 11.23). De acordo com Êxodo 12.8, a refeição pascal precisava ser comida à noite. Em quarto lugar, a última ceia terminou com um hino (Mt 26.30; Mc 14.26). Era costumeiro terminar a Páscoa cantando a última parte dos salmos 113-118. Além disso, durante a refeição da Páscoa, era costume interpretar o significado simbólico dos vários elementos da refeição (Ex 12.26,27). Isso foi feito na última ceia. Por último, a noite da Páscoa precisava ser passada dentro de Jerusalém. Na época da Páscoa, a população normal de Jerusalém (de 25 mil a 30 mil pessoas) aumentava para 125 mil ou mais. Era impossível que todos os peregrinos encontrassem um lugar para passar a noite dentro da cidade murada. Como resultado, Jerusalém foi redefinida e passou a incluir todas as colinas que se voltavam para a cidade. Assim, embora a refeição pascal precisasse ser comida dentro da cidade murada, todos poderiam dormir à noite na “grande Jerusalém”. O jardim do Getsêmani ficava na encosta ocidental do monte das Oliveiras, de face para Jerusalém. Na noite da ceia, Jesus e os discípulos não voltaram para Betânia, mas permaneceram no Getsêmani, que fazia parte da “grande Jerusalém”.

Refeição Pascal

A refeição pascal, que exigia a presença de dez pessoas, consistia essencialmente de seis elementos, todos eles possuidores de significância simbólica:
1. O cordeiro pascal só podia ser assado sobre o fogo. Todas as suas partes precisavam ser comidas naquela noite. Nada podia ser guardado. O que sobrasse precisaria ser queimado. O cordeiro lembrava aos participantes o momento do Êxodo, quando, à noite, o anjo da morte visitou todos os primogênitos no Egito. Somente os lares protegidos pelo sangue do cordeiro pascal escaparam;
2. O pão sem fermento lembrava que a libertação do Egito foi tão rápida que eles não tiveram tempo de assar os pães;
3. A tigela de água salgada lembrava a tristeza e as lágrimas do cativeiro, assim como a passagem pelo Mar Vermelho;
4. As ervas amargas lembravam a amargura do cativeiro no Egito;
5. O “charosheth”, um tipo de purê de frutas, lembrava o barro usado para fazer tijolos durante o cativeiro no Egito;
6. Por fim, quatro copos de vinho tinto eram misturados com água. Esses quatro copos lembravam as promessas que Deus fizera em Êxodo 6.6,7. É provável que um desses copos tenha sido usado por Jesus na última ceia (Lc 22.20). O quarto e último copo era seguido por uma bênção e pelo cântico de um salmo.
No final da refeição pascal, era costume que alguém (normalmente o filho mais novo) fizesse a pergunta: “Por que esta noite é diferente das outras noites?”. O anfitrião então explicava o significado da refeição e contava a história do Êxodo, usando o simbolismo dos vários elementos enquanto fazia sua narrativa. A história era contada do ponto de vista dos participantes. “Nós fomos escravos no Egito. Deus preparou para nós um libertador, Moisés...”. Como anfitrião do banquete, Jesus seria quem contaria a história. Que Páscoa diferente deve ter sido esta! É bom lembrar que o Senhor já havia dito aos seus discípulos que aquela Páscoa teria algo de especial. Ele havia advertido: “sabeis que daqui a dois dias celebrar-se-á a páscoa; e o Filho do homem será entregue para ser crucificado” (Mt 26.2). Assim, Jesus, que nas palavras de João Batista, é “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29), e nas palavras de Paulo, é “nosso Cordeiro pascal” (1Co 5.7), tomou o pão e o cálice e declarou: “tomai, comei; isto é o meu corpo... bebei dele todos; porque isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados” (Mt 26.26-28). Portanto, celebremos esta data com muita gratidão em nossos corações. Afinal, “ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2Co 5.15). Feliz Páscoa!


Fonte: Christian Lo Iacono

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